Cineasta, desembargadora, tenente-coronel e cientista: conheça mulheres que 'furaram a bolha' ocupam espaços antes dominados por homens

Série Marcas: última reportagem mostra mulheres em cargos de destaque Mesmo em um cenário marcado pela desigualdade de gênero, algumas mulheres conseguiram ...

Cineasta, desembargadora, tenente-coronel e cientista: conheça mulheres que 'furaram a bolha' ocupam espaços antes dominados por homens
Cineasta, desembargadora, tenente-coronel e cientista: conheça mulheres que 'furaram a bolha' ocupam espaços antes dominados por homens (Foto: Reprodução)

Série Marcas: última reportagem mostra mulheres em cargos de destaque Mesmo em um cenário marcado pela desigualdade de gênero, algumas mulheres conseguiram ocupar espaços historicamente dominados por homens. Na terceira e última reportagem da série especial “Marcas” no NE2, conheça histórias de pernambucanas que superaram barreiras e se destacaram em diferentes áreas. Entre elas estão a cineasta Kátia Mesel, a tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Rafaela Veiga, a neuropediatra Vanessa van der Linden e a desembargadora Andréa Brito. Cada uma seguiu caminhos diferentes, mas todas têm em comum o fato de terem conquistado espaço em ambientes que, por muito tempo, foram ocupados quase exclusivamente por homens. ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp As quatro histórias mostram que, apesar das barreiras históricas, as mulheres têm ampliado sua presença em diferentes áreas da sociedade. Pioneira no cinema Kátia Mesel é pioneira no cinema em Pernambuco Reprodução/TV Globo A cineasta pernambucana Kátia Mesel começou a trilhar sua carreira ainda jovem, nos anos 1960, num período em que o cinema parecia distante da realidade local. Para ela, o cinema era algo difícil de alcançar. “Para mim, o cinema não era exatamente masculino. Era uma coisa inatingível, porque era Hollywood”, disse. Formada em arquitetura, ela se tornou uma referência no audiovisual pernambucano. Ao longo da carreira, produziu mais de 300 filmes e programas de televisão e recebeu prêmios em festivais de cinema. Hoje, ela trabalha em um novo projeto sobre a escritora Clarice Lispector. "Nunca quis ir contra, nem quebrar, exatamente, nada, nem ser exemplo para ninguém. Eu queria ser dona do meu focinho. Fui dar aula particular de inglês para ganhar dinheiro para ir fazer estágio no Rio de Janeiro", contou. Liderança no Corpo de Bombeiros Rafaela Veiga foi a primeira mulher tenente-coronel no Corpo de Bombeiros de Pernambuco Reprodução/TV Globo Outra pioneira é a da tenente-coronel Rafaela Veiga, a primeira mulher a alcançar esse posto no Corpo de Bombeiros de Pernambuco, quando a corporação já tinha 137 anos de existência. Segundo ela, o início da carreira foi marcado por resistência dentro da própria instituição. “Foi o período mais difícil, em que tive chefes que não me aceitavam, oficiais superiores a mim que também não me aceitavam. Não aceitavam não Rafaela, mas a mulher bombeira militar”, afirmou. Rafaela passou em dois vestibulares e no concurso de formação de oficiais ao mesmo tempo em que cuidava da filha bebê, com menos de 1 ano. Na academia de formação, praticamente só havia homens. "Considerando que eu já tinha minha pequena, eu precisava, na época, de uma estabilidade financeira. Por isso, optei pelo concurso e entrei no Corpo de Bombeiros em 3 de março de 2004. [...] No início foi bastante difícil, de realmente sair quebrando as barreiras e se posicionando e tendo que mostrar, a todo momento, por que estava ali", declarou. Mesmo assim, Rafaela seguiu na carreira e hoje coordena equipes responsáveis pela segurança de grandes eventos no estado. Comanda reuniões em que é a única mulher, e senta na cabeceira da mesa. “Hoje, nada mais me intimida. Às vezes olho para os lados nas reuniões e vejo que sou a única mulher na mesa”, disse. Ciência e descoberta Vanessa Van Der Linden ganhou destaque internacional durante a epidemia do vírus Zika, em 2015 Reprodução/TV Globo A neuropediatra Vanessa Van Der Linden ganhou destaque internacional durante a epidemia do vírus Zika, em 2015. Na época, ela e a mãe, também médica, ajudaram a identificar a relação entre a infecção e os casos de microcefalia registrados em recém-nascidos. Desde então, Vanessa se tornou referência no atendimento a crianças com doenças raras, autismo e transtornos do desenvolvimento. Segundo ela, decisões importantes exigiram coragem. "Eu queria fazer pediatria e quase desisti, porque eu estava casada e como eu ia para São Paulo sozinha? [Eu disse] Pode ser que o casamento acabe, mas eu vou. E, se tiver que durar, vai durar, porque tem decisões na vida que a gente tem que fazer", contou. Atualmente, as crianças com microcefalia têm em torno de 10 anos. Quando ninguém entendia por que o cérebro de inúmeros recém-nascidos em Pernambuco não havia se desenvolvido normalmente, Vanessa e a mãe, Ana Van Der Linden, dispararam o alerta. O problema poderia estar relacionado à infecão pelo zika na gestação das mães. "Na época da zika, me lembro a primeira vez que me chamaram para ir numa reunião da Organização Mundial de Saúde (OMS). Eu disse 'meu Deus, meu inglês não é bom para isso, mas eu vou'. Ou então ia outra pessoa que, às vezes, não tem a experiência que eu tenho para poder representar naquela reunião. Apesar de eu ser uma pessoa tímida, quando eu tenho um obstáculo, eu vou atrás", disse. Vanessa, hoje, têm duas filhas, de 21 e 25 anos. Ela lembra que, quando engravidou, precisou iniciar duas carreiras ao mesmo tempo. "A gente quando começa a trabalhar, a ter um pouco de independência, tem algum dinheiro para dizer 'poxa, agora eu posso relaxar', já está perto dos 30 anos. Hoje, até que o pessoal espera os 40 anos para ter filhos, mas, naquela época, não. E aí você meio que começa duas carreiras juntas. A carreira de mãe e a profissional", afirmou. Presença feminina no Judiciário Andréa Brito é uma das poucas desembargadoras do Tribunal de Justiça de Pernambuco Reprodução/TV Globo No Tribunal de Justiça de Pernambuco, a desembargadora Andréa Brito também faz parte de um grupo ainda pequeno de mulheres em cargos de liderança. Há um ano e quatro meses, veste a toga do cargo que ocupa. Atualmente, apenas quatro mulheres fazem parte da corte, que conta com 54 integrantes. Elas são menos que um décimo do total de membros. "É uma tristeza, porque é o retrato que o mundo, de fato, é machista", disse. Para ela, o avanço das mulheres nesses espaços é resultado de décadas de mobilização feminista. Quando Andréa tornou-se juíza, passou a haver 14 mulheres nessa função, em Pernambuco. Ela chegou ao cargo mais alto depois que o TJPE abriu seleção, pela primeira vez, exclusivamente para ampliar o espaço das mulheres. "Eu devo tudo isso àquelas mulheres que queimaram os sutiãs em praça pública. Foi um trabalho de formiguinha. Eu não estou falando do século 18, nem 17. Estou falando do final do século 20. Quer dizer, o ingresso das mulheres dentro do Poder Judiciário pernambucano é algo muito recente. É menos que um suspiro na linha do tempo", declarou. Andréa também acredita que a presença feminina em posições de destaque pode inspirar novas gerações. “Tenho a obrigação muito grande de ser inspiração para outras mulheres que queiram ser desembargadoras e tenham que, de fato, ser protagonistas de ações que levem essas mulheres a poderem chegar onde eu estou com menos tempo de carreira", afirmou. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

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